Durante toda a minha vida sempre fui muito mais moleca do que menina. Adorava jogar bafo, pular muro, andar de pé no chão. Passava longe das pastas recheadas de papéis de carta cor de rosa, com bichinhos e cheiro de chicletes e só me rendia as meninas na hora da melhor brincadeira de todas: Pular elástico!

  E hoje, ao buscar meu filho na escola, me deparei com uma cena que me transportou há exatos 30 anos atrás, quando eu estudava naquele mesmo colégio e brincava, todos os dias, daquela maravilha. Quem já passou dos 30 como eu, com certeza se lembra dessa brincadeira. Usávamos um elástico grosso, desses de passar em saias e calças – as meninas mais ricas tinham os achatados, bem branquinhos – que eram esticados entre duas delas. A terceira pulava para dentro do espaço formado e começava uma verdadeira cama de gato com os pés. À medida que ela conseguia passar pela primeira fase, o elástico ia subindo pelas pernas magricelas das amigas até quase atingir o pescoço, enquanto nos esforçávamos para superar o auge do desafio do elástico.

  Ao ver aquela menina tão magrela quanto eu fui, fazendo os primeiros movimentos quase coreográficos da gostosa brincadeira, me lembrei de tudo que também vivi. Minhas pernas pareciam se lembrar de cada passo e por pouco não fui levada a pedir licença àquelas que viriam, atônitas, uma senhora invadir o espaço sagrado do elástico.

 O mais legal era que o meu não era alvo e nem achatado – hoje eles são coloridos, quase fashion – mas sim preto e roliço que minha mãe havia conseguido não sei aonde, pois estávamos em épocas de vacas magras: Meu irmão acabara de nascer e todo e qualquer gasto considerado supérfluo era cortado. Imagina elásticos brancos! Mas nem por isso eu pulava menos, brincava ,sorria menos ou era menos feliz durante as peripécias com meu elástico tão diferente. Acho que foi aí que comecei a moldar a minha personalidade.

  Hoje, naqueles poucos segundos admirando a menina magrela, percebi como a felicidade pode estar em pequenas e simples coisas que às vezes nem percebemos.  Senti o mesmo vento no rosto, o rabo de cavalo pulando, meu corpo de menina se esbaldando entre duas míseras tiras esticadas de elástico, branco ou não. E senti o absurdo daquela felicidade tão pura, tão minha, tão diferente.  Tive outros elásticos pretos, outros comportamentos, cores de cabelo, posturas de vida… E tudo isso me fez e me faz o que sou hoje: Um pouco fora do padrão, mas de uma alegria sem fim!

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