Criei meu filho mais velho praticamente sozinha . Lógico, com a ajuda dos meus pais, madrinhas e padrinho, mas eu. Ida a médicos, reuniões de escola, cinemas, parquinhos e pracinhas. Sempre eu.

Com 7 anos ele conheceu o pai. E hoje ele virou o seu herói. Como isso dói! Sim, porque nada do que aconteceu antes disso parece existir. As noites em claro amamentanto, curando a febre, velando o sono… As primeiras consultas, o ensinar a andar, o curar de um machucado. As primeiras palavras, seus sorrisos, tudo tão meu que nunca pensei em ser ameaçada nesse mundo perfeito. Nesse mundo meu.

Até que o filho cresce, começa a freqüentar o mesmo esporte que o pai, descobre mil afinidades e a mãe é deixada de lado. Vira a vilã da história, a que não se dedica , que NUNCA FAZ NADA POR MIM! Frase dura de ser ouvida. Chorei da minha casa até a Praça da Liberdade, onde fui dar uma caminhada para espairecer, antes de desabar. A vontade que dá é de fazer um relatório desde o dia que a criaturinha nasceu contando, com detalhes,TUDO,mas tudo mesmo que você fez por ele sim! E faz, sem parar…

E caminhando, comecei a lembrar das minhas 12 horas de contração antes do parto – juro, foram 12 – da minha aflição conferindo os dedinhos do pé e da mão para ver se estava tudo no devido lugar, a conjutivite que ele teve logo depois de nascer que me fazia temer a troca de remédios na hora do sono… ( eu lavava a mão com álcool e pingava água boricada no olhinho dele…imagina o contrário? ). Lembrei do seu batizado, com o pai ausente, quando me senti forte e capaz de abençoar aquele anjo e quando meu irmão fez as vezes de pai. Todos os dias dos pais em que eu aparecia sozinha ou com o meu pai para mostrar a ele o quanto ele era – e é – amado. As noites em claro que passava, pensando no que fazer para pagar a escola, comprar o presente de Natal ou o que mais ele precisasse. O que responder na hora que ele me perguntasse: cadê meu pai?

Todos os exames que não conseguia decifrar e achava que meu filho tinha uma doença incurável, as vacinas, reações às vacinas, reações às reações…Descobrir que ele gostava de leite de soja e maçã raspadinha, até quase virar água…Dar graças a Deus quando ele comia um prato cheio de beterraba e brócolis e ter a paciência de Jó quando ele ficava uma hora pra almoçar com o escolar buzinando na porta de casa!

Achar a enfermaria do shopping na véspera de natal e dar adeus ao vestidinho branco manchado de sangue do corte no queixo do seu filho que conseguiu abrir o mesmo lugar mais 4 vezes! Lembra, Lu? Passar protetor solar na marra, correndo pelo clube igual uma boba enquanto ele se desvencilha e volta quase com insolação…

Levar no primeiro filme e perceber que ele se interessava mais pelos parafusos do ar condicionado que foram retirados quase um a um para delírio da platéia…Tirar fotos dele dormindo, usando o peniquinho, sem dentes, com cabelo pintado de verde…Lindo, sempre, de qualquer jeito!

Ser capaz de jogar bola, dar colo e trabalhar. Ser mãe, pai e o que mais precisasse ser. Ir a todas as reuniões tediosas da escola e não ter quem olhar no olho e dizer: nosso filho nos dá tanto orgulho! Quem dividir a troca de fralda ,a papinha, o primeiro passo vindo na sua direção. A primeira palavra que não foi mamãe, mas foi “bibi” pela sua total paixão por carros… A fada dos dentes que esquecia de deixar a moeda e colocava no meio da tarde…

Ter vontade de estrangular o menino que se atreveu a bater no seu filho e encarar pai e mãe alheios para defender o que é seu. Ensinar obrigado, com licença e, por favor, as tais palavrinhas mágicas que como mágica também são esquecidas… Conferir mochila, cadernos, merenda e uniforme. Comprar o presente dos coleguinhas que nunca viu, levar nas festinhas e engolir em seco quando perguntada: Seu marido veio? 

-Não, eu vim sozinha…

As festas juninas, os teatrinhos, os campeonatos de judô, futebol ou sei lá mais o quê em que me sentia a mais solitária das pessoas, mas sorria firme e aplaudia meu filho… As inúmeras vezes que ele se perdeu e eu pensava: o que vai ser de mim? E quando o encontrava, misturando ódio e alívio por ter encontrado novamente a minha razão de viver.

Razão que se sente quase um adulto e especulo sobre a primeira namorada, o que quer ser quando crescer e tento, de todas as maneiras, ajudar no seu crescimento e na sua felicidade. Adivinho pensamentos, pergunto demais, luto contra o tempo. Ele está crescendo e isso é inevitável. Se sente dono de si e vai ser, daqui a alguns anos. Mas será um cidadão consciente, pois antes de dormir, ele veio me pedir desculpas. E com um abraço disse: Te amo, mãe…

– Também te amo, meu filho…

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