Me rendi e fui ver 50 tons de cinza com um intuito muito claro: Entender o porquê de tanto frisson. Se eram as cenas de sexo que deixavam a nuca arrepiada, as chicotadas que abriam novos caminhos para o prazer ou se o tal Christian Grey era tão gostoso assim. E acho que nunca me decepcionei tanto com um filme. Qualquer transa de sexta feira a noite é mais excitante que as mãos amarradas na gravata cinza do protagonista.

O que salva – um pouco – o filme é a atriz que faz a Anastasia. Linda e provocante, ela nos ensina alguns truques interessantes de conquista, tipo desejar e não se render ao desejo, provocar e não se deixar ser provocada e levar ao limite o tesão de um homem.

Mas tudo se complica quando ela – virgem – cai nas garras do sedutor. E gosta do que ele faz com ela. A princípio quase romântico, Christian sabe muito bem o que quer: Uma escrava sexual. Com todos os luxos e prazeres possíveis. Ele está disposto a tudo para ter Anastasia na sua sala de brinquedos: Viagens de helicópteros, roupas, livros preciosos e até um carro ele dá para a sua escolhida. E o que a mente de uma mulher decodifica com tantos sinais? ELE ME AMA!

Mas Christian não ama ninguém. Ele tem 50 formas diferentes de neuroses que vão muito além da sua mania por limpeza, organização e controle. Não são as suas gravatas que dão o tom – ou os tons de cinza – do filme. São as loucuras que ele esconde de si mesmo para conseguir sobreviver. E que ele deixa claro desde o começo para ela: ” Eu não sou do tipo romântico, não sou do tipo que se envolve.”

Mas adianta? Alguma mulher escuta isso e se conforma? NÃO!!! Encaramos isso como um desafio. Um desafio perigoso onde apenas a parte mais sensível sai machucada: nós. Porque ela não se conformou com um sexo delicioso, uma estadia de três noites na casa dele em um quarto só dela, em saídas para jantares perfeitos até? Por que queremos conhecer família, dormir de conchinha, saber do passado, vasculhar o coração, sangrar a alma. E mesmo conhecendo a família, sendo alvo de cena de ciúmes, tendo um homem lindo e disponível nas mãos, Anastasia ficou satisfeita? NÃO! Queremos amor e sexo. Queremos sempre mais. De maneira inadvertida e desorientada. E sempre avassaladora.

E depois de toda loucura que permeia a maioria dos relacionamentos, chegamos a cena final. O corpo nu de Anastasia sobre uma mesa e a fúria no olhar de Christian que  – a pedido dela – a chicoteia 6 vezes. Dá para perceber que ele sente um prazer imenso com aquele gesto, enquanto ela chora e geme de dor. A cada nova chicotada mais ela se apega a mesa e mais prazer ele sente. E sabem o que representa cada uma daquelas chicotadas? Cada uma delas mostra exatamente cada procedimento estúpido e comportamento egoísta que aturamos dos homens. E que sempre dá muito prazer. A eles.

A chicotada um pode ser quando ele não liga depois do sexo, a dois quando ele some no final de semana, a três quando esquece do aniversário de namoro ou do nosso, a quarta quando compramos uma lingerie sexy e ele não repara, a quinta quando o sexo já não é mais o mesmo e a sexta é quando nem ao menos aturamos olhar pra cara daquele indivíduo. E terminamos.

Ou seja: Por mais absurda que a cena seja – em vários sentidos – ela foi de comum acordo. Ela pediu pela surra. Ela imaginava, de maneira doentia, que ia se aproximar dele através do entendimento da sua loucura. ME PUNA! Porque? Por que imaginamos sempre que, ao ceder às vontades do outro, podemos ser aceitas e amadas. As chicotadas de Christian nada mais são do que o bolo que a gente leva, do fora, da traição do grande amor, da falta de romantismo, da falta de amor, da falta. A surra que ela levou é mais uma das coisas que não entendemos porque ganhamos do homem. Mas aceitamos apanhar.

E aí, depois de surra, ela vai embora. Chorando e ofendida. Dando um basta. Mas ela foi avisada, várias vezes, que assim seria. Ela quase assinou um contrato consentindo. Ela sentiu prazer consentido. Mas ela não suportou ele não querer ser do jeito que ELA queria.Como todas nós não suportamos que nossos homens não estejam de acordo com as nossas ilusões. Sob chicotes ou não.

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